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segunda-feira, 1 de agosto de 2011

O gosto de agosto.

       Calendário marcou primeiro de agosto. Escondi as malas, tranquei o guarda-roupa, pintei as paredes do quarto de verde erva-doce, abri as janelas para o sol entrar...
       No agosto passado nem ao menos tive tempo de me despedir.
       Quando cheguei em casa as roupas limpas não estavam mais penduradas no varal, corri para o quarto, tudo estava escuro, frio. Minhas flores murcharam no pote, deixando cair algumas pétalas sob nosso travesseiro no chão da sala. A televisão ligada, porém fora do ar.
       Me lembro nitidamente: corria de um lado para o outro. No banheiro não havia mais os rastros de quem sai molhado do chuveiro porque esqueceu a toalha – mais uma vez. Podia sentir ele ali, ouvir as gotas de água quente caindo no chão, mas era impossível agora, ouvir a voz dele pedindo, “ Pega a toalha para mim, esqueci ”. Consegui sorrir com a lembrança. Meu coração desesperado me levou até a cozinha, quem sabe um bilhete, um recado...Mas não havia nada. Na pia, o copo com a marca da boca, na mesa o disco preferido, agora arranhado. Gritava, sem resposta, meu grito abafado pressionava meu coração que doía querendo explodir.
       A história relata o abandono.
       Foi no agosto passado que ele me deixou. Sentindo-se atraído por um vento alheio, típico do mês.
      O cheiro dele ainda estava no lençol, e sobre meu corpo nu, o estirei, numa tentativa de sufocar a dor.
      Os dias pareciam meses, anos.
      Sozinha me perguntava o " por que? ". O vento ultrapassava a janela, com as mãos contra o peito eu gritava, chamando por ele, depois com o corpo todo já entorpecido, só conseguia ouvir  Renato Russo dizendo : "Lembra que o plano era ficarmos bem?..." E então, você estava bem? Esse vento que te levou, que te tocou, conseguia te cuidar como eu?
      Assim, dia após dia.
      Mas ele voltou, me encontrando enrolada em nosso lençol, voltou dizendo que ficaria. Pra sempre. Minha voz estava fraca, ele me pegou no colo, olhou meus olhos inchados, me abraçou e selou os lábios em meu pescoço. Comecei então um pedido: “ Promete que não...” desisti. Ele já havia prometido antes. Sentei na beiradinha da cama e chorei, de novo. Me entregou uma flor, e disse que quando deixou se levar pelo vento, pode perceber que o refugio estava em meus braços, e me pediu para voltar.
      Agarrei o com força, afundei meu rosto em seu peito, e ordenei que ficasse.
      Hoje, agosto, tem gosto de insegurança,  medo – de vento.
      Deitados no chão da sala, corpos emaranhados, sinto seu hálito, suas mãos no meu cabelo, e o som rouco-baixinho, da sua voz me dizendo: "Deixa, que eu cuido de você." E eu respondo: "Estou te acreditando, outra vez, viu?"
      Nossa música no rádio, um vinho doce, corpos nus colados, e o sol que insiste em iluminar, trazendo calor para dentro de casa, espantando o vento, permitindo sobreviver a mais um agosto, provando à nós que é do meu lado o seu lugar.

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